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Um conto de reis - 1966 a 1970 * Durante os eternos ensaios do conjunto em nosso velho porão empoeirado (talvez um poeirão?), inteiramente decorado com fotos, posters e lâmpadas coloridas, nós somos, de fato, os Reis da Humanidade: o mundo lá de fora que se contente em esperar o dia em que apareceremos na sacada de um irreal palácio real para saudá-lo! Mas, afinal, quem somos nós, digo, quem são os Beathovens? Pois bem, certa vez, um futuro-quase-grande jornalista também queria saber e nos perguntou, visivelmente interessado: como foi que vocês começaram? Algum tempo depois percebemos que, na verdade, ele queria apenas saber como havíamos conseguido continuar... Não foi nada fácil, pode crer! Tudo começou no dia 6 de novembro de 1966 e, primeiramente, tivemos que vestir roupas esquisitas e aprender a abotoá-las. Depois foi preciso deixar crescer ainda mais os cabelos e, finalmente, tivemos que comprar todos os instrumentos musicais. Ah, sim! Depois de tudo isso ainda tivemos que aprender a tocar e cantar, ou, pelo menos, tentamos. Aliás, continuamos tentando até hoje. Naquela época éramos seis (alguns anos antes, um erudito escritor roubou esta frase e a usou como título de um livro, aliás, belíssimo): os 4 integrantes do Flaming Stars, Pieretti e eu, Bifano. A coisa aconteceu porque o Flaming Stars, formado por Negrini, Piccardi, Peccicacco e Ferreira, resolveu participar do show de alunos do Colégio Dante Alighieri. Para o show, decidiram reforçar o som com o teclado do Pieretti e com o vocal do Bifano que, pra dizer a verdade, nunca tinha cantado na vida. O dia 6 de novembro foi o dia em que fiz o teste de voz, por ordem do Piccardi (não pensa que vai entrando "assim" no meu conjunto, não) e a contragosto do Ferreira, que queria cantar sozinho. Mas o Peccicacco e o Negrini tanto insistiram, que entrei. E mudei o nome do conjunto para Beathovens, uma mistura de Ludwig van Beethoven com Beatles. Lembro bem da primeira performance em público, no auditório da AEDA: quando o apresentador anunciou nosso número, e após alguns instantes de intensa expectativa, eu entrei abruptamente no palco! Não que eu quisesse, mas os outros eram mais fortes e conseguiram me empurrar na frente, e então vi aquele monte de gente olhando e fiquei pensando que podia ter ficado em casa dormindo ou, quem sabe, podia ter ido pegar um cineminha, mas não, eu tinha que inventar essa de conjunto, droga, eles não param de olhar e a minha calça nem está aberta, mas o resto do conjunto também estava com uma cara branca-acho-que-vou-desmaiar, e no fim deu tudo certo. Ouvimos juntos, pela primeira vez, o som inebriante dos aplausos. Já sem Piccardi e Pieretti, que sairam em meados de 1967, com o Peccicacco no solo e Bifano na base, tocamos até maio de 1968, quando o Ferreira resolveu que não queria mais ficar no conjunto, como pode? Ficamos dois ou três meses pensando numa solução e, enquanto pensávamos, o Negrini foi para Londres comprar um hoffner e voltou dizendo que ia ser o contrabaixista e o Peccicacco conheceu o Votta e disse que ele tocava base melhor do que eu (o que não era muito) e eu encontrei o Piccardi, contei como estavam as coisas e ele perguntou se podia voltar ao conjunto, porém como baterista, e então paramos de pensar e começamos a ensaiar até criar a primeira festa do Transito Impedido, em novembro de 1968, e que festa! Não fosse Mamãe Piccardi chegar e arrancar aos trancos sua filha e amigas da filha daquele antro de perdição todo escuro, com umas luzes esquisitas que faziam aparecer as calcinhas das meninas e os dentes falsos dos velhos, teria sido uma das festas mais lindas do hemisfério sul - do sul do Pacaembu, foi com certeza. No finzinho daquele ano o Piccardi saiu do conjunto mais uma vez, porém como baterista, e no seu lugar entrou o Falleiros, amigo de férias no Embaré do Bifano e foi com essa formação que o conjunto se apresentou mais vezes, incluindo uma super-festa em parceria com um grupo de escoteiras, digo, bandeirantes, quando quase mil pessoas foram nos ver na Rua Itamarati, incluindo a polícia, o Beto Rockfeller da novela, um casal de namorados com malas prontas para fugir e casar, além de dezenas de pais e mães que foram procurar as filhas que ainda não tinham voltado pra casa àquela hora da noite... Em maio de 1970, influenciados pelos Beatles, ou vice-versa, nós nos separamos. Mas nós pretendíamos voltar um dia, como também eles pretendiam. A seguir, Beathovens de 1982 a 1990 (sim, eles não trabalharam por 12 anos). prbifano | |||||||||||||||||||||