A "vitória moral" da DKW nas Mil Milhas de 1966

VIII Mil Milhas Brasileiras, realizada entre os dias 19 e 20 de novembro de 1966. Sem dúvida alguma, a corrida mais dramática para os carros da Vemag. Sem o patrocínio da fábrica, que não participava mais de competições, seis pilotos levaram os três Malzoni oficiais do departamento de competições aos 2º, 3º e 4º lugares na prova, sendo que um deles, o menos potente, quase venceu a corrida, considerada a mais importante e tradicional do calendário brasileiro de automobilismo. A Vemag cedeu carros, material e apoio logístico para a equipe Lumimari. Os pilotos, no entanto, tiveram de arcar com as despesas de combustíveis, pneus, alimentação, etc. A equipe, ora intitulada Equipe Brasil, inscreveu cinco carros para a corrida: dois Malzoni 1100cc (o nº 10 para a dupla Marinho/Scuracchio e o nº 4 para os pilotos Casari /Erimá), um Malzoni 1000 cc (nº 7, para os pilotos Emerson Fittipaldi/Jan Balder) e duas carreteras (a DKW nº 13 encurtada, denominada Mickey Mouse, para os pilotos Volante 13/Walter Hahn Jr. e a DKW nº 11, de teto baixo, para a dupla Roberto dal Pont/Pedro Vitor Delamare). A Willys fez-se representar pelos dois Alpine 1300cc (o nº 47 pilotado pelo Luiz Pereira Bueno/Luiz Fernando Terra Smith e o 46 por Bird Clemente/Carol Figueiredo) e pela carretera Renault Gordini com motor R-8 de 1100cc (guiada pela dupla Marivaldo Fernandes/Helio Mazza). A Dacon inscreveu quatro Karmann Ghia Porsche: dois com motores 2000 cc e dois com 1600 cc. Os dois primeiros foram entregues aos pilotos Wilson Fittipaldi Jr/Ludovino Perez Jr. (nº 77) e José Carlos Pace/Antonio Porto Filho (nº 2). A Simca, que também havia fechado o seu departamento de competições, vendeu a carretera equipada com motor Tufão para a dupla Jayme Silva/José "Toco" Martins, que assim pôde participar da prova. Além desses, registra-se a participação da equipe Jolly Gancia e das tradicionais carreteras com motores V8, sendo a mais famosa a nº 18, da dupla Camilo Christófaro/Eduardo Celidonio.
Os cinco melhores tempos classificatórios foram: 1) W. Fittipaldi Jr. (Karmann Ghia Porsche #77), 3min38s2; 2) Luiz Pereira Bueno (Alpine #47), 3min47s8; 3) Camilo Christófaro (Chevrolet Corvette #18), 3min55s6; 4) Marinho (Malzoni DKW #10), 3min56s3; 5) Bird Clemente (Alpine #46), 3min56s8.
Às 22h30 do dia 19 foi dada a largada, ao estilo Le Mans: carros de um lado pilotos do outro. Todos os carros da Vemag tiveram problemas na largada. É que o Castrol R-40, até então utilizado normalmente em corridas, nessa época decantava em poucos minutos, possivelmente devido a uma alteração de sua formulação, o que obrigava os membros da equipe a ficarem chacoalhando os carros até o momento da largada. Isso não ocorria anteriormente... Enfim, completada a primeira volta surge o Alpine 47 com o Luiz Pereira Bueno em 1º , em 2º a carretera 18 com o Camilo Christófaro, em 3º o KG Porsche 77 conduzido pelo Wilson Fittipaldi Jr, em 4º o Alpine 46 pilotado pelo Bird Clemente e em 5º outro KG Porsche 2000 de José Carlos Pace. O único carro da Equipe Brasil a completar a primeira volta, ainda assim com um atraso de meia volta em relação aos líderes, foi o Malzoni 7, pilotado nesse início de corrida pelo Jan Balder. O "train" de corrida era fortíssimo, com os líderes virando na base de 3min54s. A corrida foi se desenvolvendo com algumas alterações e na 20ª volta os dois KG Porsche lideravam a corrida, seguidos dos dois Alpines. O "train" de corrida caiu dos 3min54s iniciais para 3min56s, mas ainda muito forte para uma corrida de longa duração. Com apenas 19 voltas, vinham em seguida Camilo, perseguido de outros - na 10ª posição já aparecia o Malzoni 7, pilotado na ocasião por Emerson Fittipaldi. Na 45ª volta, com menos de quatro horas de corrida, a média da prova ia subindo, chegando a 115,714 km/h. Luiz Pereira Bueno, com o Alpine 47, aparece então liderando a corrida, seguido do Malzoni 7 de Balder/Emerson Fittipaldi já na segunda posição, com duas voltas a menos. Os KG Porsche 12 e 77 enfrentavam problemas, pois tiveram os pára-brisas quebrados, obrigando os carros a efetuarem várias paradas no box. O KG Porsche 2 pilotado pelo Môco ficou sem gasolina na curva do Sargento, perdendo oito minutos e caindo para o quinto lugar. Com 60 voltas o Alpine 47 continuava na liderança. Com duas voltas a menos, a carretera 18, que recuperara a segunda posição, o KG Porsche 2 em terceiro, o Malzoni 7 em quarto e a Alfa 23 em quinto.
Com 56 voltas, em sexto lugar, surgia o Malzoni 4 de Casari/Erimá, seguido do Malzoni 10 de Marinho/Scuracchio. A média do líder era de 115,446 km/h. O Alpine 47 continuava noite adentro na ponta e com 80 voltas andava num ritmo mais tranqüilo, numa média de 113,630 km/h. Com apenas uma volta a menos, fazendo uma linda corrida, vinha o Malzoni 7 seguido do KG Porsche 3 (ambos com 79 voltas). Em 4º lugar, com 76 voltas e melhorando rapidamente, vinha o Malzoni 10 seguido pelo de nº 4 com 75 voltas. A carretera 18, com 75 voltas, aparecia em sétimo, depois de perder bastante tempo parada na pista por falta de gasolina. Às 4h25, Luizinho pára no box com a manga de eixo quebrada e o Malzoni 7 assume a liderança da prova, já que o conserto do Alpine durou 30 minutos. Entretanto, na volta seguinte é a vez do novo líder parar no box para reabastecer e prender a bateria que se soltara. Foi aí, ao se completarem 100 voltas - metade da prova -, que Môco, em rápida recuperação, assumiu a ponta, com a média de 112,517 km/h. Às 5h50, os três Malzoni apresentavam uma posição privilegiada na manhã que surgia. O 7 era o segundo com 99 voltas, o 10 era o terceiro com 97 voltas e o 4 era o quarto também com 97 voltas. O Alpine 47, devido à quebra, vinha em quinto, seguido do KG 77, da Alfa 23, do Simca 26, da carretera 18 e do Renault 45.
Às 6h do domingo o KG Porsche 2 líder enfrenta problemas com o câmbio (as 2ª e 4ª marchas que não engatavam), e com isso o Malzoni 7 ia lentamente encostando. Com 120 voltas, o Malzoni 7 assume a liderança com a média horária de 110,971 km/h. O KG Porsche 2, que vinha correndo apenas com as 1ª e 3ª marchas, passa em segundo lugar. Em terceiro, com 119 voltas, vinha o Malzoni 10, e em quarto o nº 4 com 118. Em quinto lugar, embora parado no box, o Alpine 47, que tivera pela segunda vez a manga de eixo quebrada. Quando a prova chegou nas 140 voltas, o KG Porsche 2, mesmo correndo apenas com as 1ª e 3ª marchas, reassume a primeira colocação com a média horária subindo para 111,236 km/h. Com o mesmo número de voltas, mantendo seu carro num ritmo seguro, o Malzoni 7. Duas voltas atrás os Malzonis 10 e 4. Camilo com a carretera 18 melhora sua posição de sexto para quinto, com 137 voltas. O Alpine 47 quebra a terceira manga de eixo! Com 150 voltas, as principais posições continuavam inalteradas, com exceção do Malzoni 4, que troca de posição com o 10. A carretera 18 permanece em quinto lugar com 146 voltas. As posições eram as mesmas na volta 170: o KG Porsche 2 liderava, o Malzoni 7, magnificamente bem tocado, era segundo. Novamente invertem-se as posições dos dois outros Malzonis da Equipe Brasil: faltando apenas 31 voltas para o final, Marinho aumenta o "train" de corrida e retoma o terceiro lugar, seguido do Malzoni 4 de Casari/Erimá. Ao se completarem 180 voltas, o KG Porsche 2 que vinha liderando a corrida pára na curva da Ferradura com um terminal de direção quebrado.
Às 11h45, o Malzoni 7 com Jan Balder ao volante passa para a ponta, seguido dos Malzonis 10 e 4 com uma volta a menos. Os três Malzonis da Equipe Brasil ocupavam as três primeiras posições! A carretera 18, com Celidonio pilotando e agora em quarto lugar, recebeu sinal para "baixar a botina", pois estava na mesma volta que o segundo e terceiro colocados. Cálculos começaram a ser feitos. Os Malzonis não precisariam parar para reabastecer. A carretera 18, ninguém sabia. Jan Balder recebe ordens de aumentar o ritmo e aumenta gradativamente das 6.000 rpm que vinha mantendo para 6.500 rpm, e na volta seguinte um pouco mais, até encostar no limite das 7.000 rpm. Balder, que vinha rodando em torno dos 4min30s, passou a virar em 4min10s. Celidonio, por sua vez, melhorava para 3min50s. A tensão era imensa. Pelos cálculos do seu box, mantendo esse ritmo Balder poderia ganhar a corrida com alguma diferença sobre a carretera 18, que acabaria em segundo, mesmo descontando 20 segundos por volta.
Ao completar a 195ª volta, faltando apenas seis para o final, o Malzoni 7, que durante tantas horas rodara redondinho, passou pela reta do box com apenas dois cilindros funcionando! Desesperaram-se os integrantes da equipe Malzoni... Celidonio, que vinha voando baixo, avisado, foi encostando cada vez mais em Balder, que via assim a maior chance de sua vida fugir-lhe das mãos. Ao completar 197 voltas (faltando quatro para o final), Balder pára no box. Segundo Balder, o Crispim trocou as três velas do motor com o carro funcionando, levando choque de tudo que era jeito, pois havia a possibilidade de haver um pistão furado e aí, se o motor fosse desligado, a água do circuito de refrigeração encharcaria os cilindros e o motor não pegaria mais. O carro partiu com o motor limpo, em três cilindros, mas não andou cem metros e novamente passou a funcionar com apenas dois cilindros... A carretera 18 era a nova líder da prova. Entretanto, nem bem o Malzoni 7 retornava à pista, ainda em dois cilindros, e o Camilo Christófaro sinaliza para a carretera com um funil na mão. Novamente o desespero da equipe dos Malzoni é substituído pela esperança, pois a carretera teria de parar para reabastecer. A emoção era geral e muitos lembraram que o Camilo perdera uma outra prova praticamente ganha, quando no fim teve que parar e não conseguira partir novamente.
Na 199ª volta Celidonio encostou no box para reabastecer. Após talvez os 20 segundos mais compridos da dupla Camilo/Celidonio, a carretera estava pronta. Foi feita a primeira tentativa para a partida do motor e nada! Balder, rateando vinha chegando mais perto. Celidonio tenta novamente e enfim o motor pega! O carro retorna à pista e as esperanças da Equipe Brasil se desvaneceram. Na última curva da prova o Malzoni 7 é ultrapassado, inclusive pelo companheiro de equipe Marinho, no Malzoni 10. Finalmente a bandeirada de chegada é descida com Celidonio ao volante. A carretera 18 entrava para a história das Mil Milhas e Celidonio, ao encostar nos boxes, é levado nos ombros pelos companheiros de equipe e demais pilotos.
Resultado final: 1) Camilo Christófaro e Eduardo Celidonio, carretera Chevrolet Corvette #18, 201 voltas em 14h30min30 s; 2) Mario César de Camargo Filho e Eduardo Scuracchio, Malzoni DKW #10, 201 voltas; 3) Jan Balder e Emerson Fittipaldi, Malzoni DKW #7, 201 voltas; 4) Norman Casari e Carlos Erimá, Malzoni DKW #4, 200 voltas; 5) José Carlos Pace e Antonio Porto Filho, Karmann Ghia Porsche #2, 200 voltas; 6) Jaime Silva e José "Toco" Martins, carretera Simca #26, 195 voltas; 7) Luiz Pereira Bueno e Luiz Fernando Terra Smith, Alpine #47, 195 voltas; 8) Wilson Fittipaldi Jr e Ludovino Perez Jr., Karmann Ghia Porsche #77, 192 voltas.
Segundo Jan Balder, no dia seguinte persistia a natural curiosidade de saber o que realmente havia ocorrido naquele cilindro. Junto com Emerson, foi até a Comercial MM, onde o carro se encontrava, tal qual havia terminado a corrida. O Crispim então ligou o condensador reserva (instalado junto ao suporte de bobinas, numa operação que não durou mais que 30 segundos), de um dos cilindros e o motor funcionou limpo, com todos os três cilindros. Deram uma volta pelas ruas da redondeza e o motor redondo! Pode ser que a dupla até pudesse ter vencido a corrida. Mas pode ser também que a carretera 18 não precisasse de fato ser reabastecida a duas voltas do final. De qualquer forma, foi o maior feito dos carros DKW na história das corridas nacionais. Em primeiro lugar, quebraram o tabu de que o carro não agüentava corridas longas - os três Malzoni correram por mais de 14 horas seguidas sem nenhuma pane ou defeito significativo. Há de se reconhecer que nesse aspecto a Equipe Brasil colheu os resultados de anos de pesquisas e experiências desenvolvidas pela fábrica, mais especificamente pelo departamento de competições chefiado por Jorge Lettry. É ainda importante se reconhecer a contribuição do departamento de testes da Vemag comandado pelo Otto Kuttner nesse processo, lembrando que a participação da equipe nessa corrida se deu devido ao apoio do pessoal dessa área, uma vez que o departamento de competições estava desativado. Finalmente, há de se registrar que dois "meninos", de aproximadamente 20 anos de idade, souberam dosar um carro de competição extremamente complexo de se pilotar, de pouca resistência em provas de longa duração, menos potente que os carros similares da equipe e de outros tantos participantes, por mais de 14 horas de corrida. Lideraram a mais tradicional prova do automobilismo brasileiro por muitas horas e quase a ganharam. Toda a honra e reconhecimento, portanto, aos pilotos Jan Balder e Emerson Fittipaldi.

Por: Carlos Eduardo Zavataro

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