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INVASÃO
O MUNDO EM
1968
"Desconfiem
dos chefes, dos heróis. Desconfiem de todas as pessoas de fora que
tentam impor a vocês suas estruturas. Façam o que tenham de fazer.
Sejam o que vocês são. Se não sabem o que são, descubram". (Timonthy Leary)
Nos anos 60, o
mundo fervia, os jovens debochavam das regras com suas roupas
coloridas, seus cabelos compridos, sua aversão ao "normal
preestabelecido". A tecnologia avançava rapidamente, o homem se
preparava para passear na lua e as telecomunicações cruzavam
opiniões, transformando o mundo em uma "aldeia" cheia de
possibilidades. Tudo o que a humanidade experimentara até então,
a hipocrisia de seus padrões morais e religiosos, sua política
corporativista e elitizada, tanto de direita quanto de esquerda, não
haviam proporcionado o equilíbrio e a dignidade que o avanço da
tecnologia pretendia oferecer. Foi contra essa sociedade
moralista e conservadora que toda uma geração se rebelou. Por toda
parte a autoridade viu-se desafiada: em casa, na escola, na cama,
nos palácios, nas igrejas, nas ruas. A tecnologia criou a pílula
anticoncepcional que revolucionou o comportamento sexual promovendo
"o amor livre". A sensualidade das roupas coladas ao corpo, aliada
ao balanço quase erótico do "rock", afirmava a busca por uma nova e
revolucionária maneira de celebrar a vida. O auge do movimento
acontece em 1968, quando os jovens saem às ruas, criticando a
estrutura das universidades, se opondo à Guerra do Vietnã e à
invasão da Checoslováquia pela União Soviética. As autoridades
tentavam conter os protestos estudantis utilizando de violência, mas
apesar de toda a repressão, o movimento parecia cada vez mais
vigoroso.
"Seja
realista: peça o impossível" Estudantes em
Paris
Paris em pé
de Guerra
No final da
década de sessenta, a Europa vivia a euforia de um tempo de
reconstrução, crescimento e prosperidade econômica. Do ponto de
vista material as coisas iam muito bem, porém, as conservadoras
universidades européias se mantinham intactas desde antes da 2ª
Guerra. Os professores distantes dos seus alunos, pareciam guardiões
de um conhecimento estático e desnecessário. Para os estudantes
as universidades eram fábricas de idiotas especializados e sua
proposta era a de promover uma reforma total em suas estruturas, no
seu espírito, em sua finalidade. Na França onde o movimento foi
mais forte, a última grande mudança no ensino tinha sido promovida
por Napoleão, o sistema inchado, dava preferência às chamadas
"grandes escolas"- poucas, elitistas e separadas do sistema
universitário comum. Liderados por Daniel Conh Bendit, estudante
da universidade de Nanterre no subúrbio de Paris, os estudantes
organizaram manifestações e ocuparam prédios da Universidade. O
reitor chamou a polícia que agiu com violência. A partir daí, o
movimento ganhou as ruas chegando provocar o fechamento da Sorbone e
sua conseqüente ocupação. O movimento estudantil recebe adesões
importante de artistas, intelectuais, jornalistas, mais foi o apoio
dos operários que acabou desencadeando uma greve geral. Como um
efeito dominó, 50 fábricas foram ocupadas, pararam os táxis, os
jornais, o metrô, os correios, o aeroporto, as tevês, um total de 8
milhões de trabalhadores em greve.
JOVENS CONTRA
A DITADURA
Quatro anos
depois do golpe, em 1968, a facção "linha dura" do governo militar,
radicalizou ainda mais sua ação política, dando início a um dos
períodos mais duros dos governos militares. Punições, caçações,
suspensão de direitos políticos, prisões, espancamentos, torturas,
gente desaparecida e exílio, o Brasil respirava o caos político.
Durante o período de Guerra Fria, havia uma crescente influência
norte americana sobre a sociedade brasileira. Essa influência podia
ser sentida de diversas formas e em diferentes áreas, na música, no
cinema, na alimentação, no estilo de vida, mas foi na educação que a
interferência americana acabou provocando o protesto veemente da UNE
- União Nacional de Estudantes. Segundo os dirigentes da UNE, o
governo tinha a intenção de transformar, gradativamente, todas as
universidades federais em regime de Fundação, como uma imposição
externa de cumprimento dos acordos feitos pelo Brasil com a Agência
de Desenvolvimento dos Estados Unidos-USAID. A discordância com os
acordos MEC-USAID se tornaria a principal reinvidincação dos
estudantes nesse momento.
"A dominação
da mentalidade e formação dos jovens é uma das formas mais antigas
de manutenção do poder". Márcio Moreira Alves -
Jornal da FEUB - 1968
No dia seguinte
ao golpe militar de 1964, o prédio da UNE foi incendiado por
militantes de direita o que indicava que durante os próximos anos a
situação de repressão e violência contra os estudantes só
pioraria. Depois da vitória da ditadura, o novo governo promulgou
em novembro de 1964 uma lei fascista com o objetivo de sufocar as
atividades estudantis. A lei imediatamente apelidada de "Lei
Suplicy" para que não se esquecesse o nome do seu mentor, o Ministro
da Educação, Flávio Suplicy de Lacerda. A nova lei vedava aos
estudantes a participação em questões políticas, proibindo sua
liberdade organizativa, criando assim, um clima favorável ao
surgimento de um movimento político estudantil de denúncia e crítica
à ditadura militar. Um aspecto de fundamental importância nesse
momento, é a influência dos meios de comunicação no fortalecimento
do movimento estudantil. As imagens invadiam os lares brasileiros
através da televisão; soldados americanos nas selvas vietnamitas,
feministas queimando sutiãs, negros pobres americanos clamando
contra o racismo nas ruas, barricadas em Paris, flores contra
tanques em Praga. Muitos jornais que haviam participado da derrubada
do regime constitucional do Presidente João Goulart, voltavam-se
agora, contra a clara inclinação totalitária e o endurecimento do
novo regime. Na tentativa de controlar a ação dos estudantes, a
polícia não hesitava em agir com violência. Em março de 1968, em um
desses lamentáveis conflitos, a polícia invadiu o Restaurante
Calabouço no Rio de Janeiro. O restaurante era custeado pelo Governo
para atender estudantes carentes, e naquele dia, um grupo de
estudantes preparava uma passeata em protesto contra o abandono em
que ele se encontrava. Na operação, a polícia mata com um tiro, o
estudante secundarista Edson Luis Lima Souto, de 16 anos, natural de
Belém do Pará. A morte de Edson Luis, demonstrou claramente,
inabilidade e intolerância oficial em relação aos estudantes e a
intenção de eliminar os focos de agitação e as lideranças do
movimento. No enterro de Edson Luis, 50.000 pessoas se
aglomeravam em frente à Assembléia Legislativa. O caixão coberto com
a bandeira brasileira desfilou pela cidade, em meio ao um clima de
revolta que se espalhava pelo país inteiro. A Igreja católica
tradicionalmente conservadora assume a defesa dos estudantes como
ocorreu na missa de sétimo dia do estudante Edson Luis, quando a
Igreja de Nossa Senhora da Candelária foi cercada pela polícia com
ordens expressas de evitar uma nova passeata. Temendo a violência
policial ocorrida naquela manhã, os padres deram-se as mãos formando
duas correntes, no meio das quais iam os estudantes.
"Ainda
paramentados com suas alvas, sobre as quais desciam as estolas
roxas, porque era Quaresma, os 15 padres seguiam o vigário-geral,
que por vezes tanto odiaram, nesse cortejo que caminhava lentamente
em direção a um muro de cavalos indóceis e cavalarianos
irascíveis". (Zuenir Ventura - 1968 o ano que
não terminou)
Nos meses que se
seguiram, o cerco se fechou em cima dos estudantes, a polícia e seu
serviço de informações vigiava e prendia as lideranças mais
combativas. Aos poucos, a tática dos estudantes como os "comícios
relâmpago" ou as correrias na contramão do tráfego das grandes
avenidas eram desarticuladas pela polícia. Episódios como o
ocorrido em junho no campo do Botafogo, quando depois de uma
assembléia na Faculdade de Economia onde cerca de 400 estudantes
foram tangidos pela Polícia Militar, faziam crescer a adesão da
população à luta dos estudantes.
"O que
ocorreu ali, no gramado do time que iria conquistar, naquele ano o
seu único campeonato nos último 20 anos. Chocou a cidade - uma
cidade que, desde a morte de Edson Luis, achava que já tinha
assistido a tudo em matéria de violência. Mais do que pela agressão
física, as fotos "hediondas" indignavam como símbolos do ultraje. A
descrição de soldados urinando sobre corpos indefesos ou passeando o
cassetete entre as pernas das moças, junto às imagens de jovens de
mãos na cabeça, ajoelhados ou deitados de bruços com o rosto na
grama, eram uma alegoria da profanação" (Zuenir
Ventura - 1968 o ano que não terminou)
No dia seguinte,
não somente os estudantes, mas o povo lutou contra a polícia durante
quase 10 horas no episódio que ficou conhecido como "sexta-feira
sangrenta". O centro do Rio de Janeiro viveu momentos de
violência generalizada deixando um saldo de 23 pessoas baleadas,
quatro mortas, muita gente ferida, intoxicada, espancada ou
amontoadas na prisão do DOPS.
A Passeata
dos 100 Mil
A situação de
violência chega a um ponto tal que a classe média brasileira que em
1964, apreensiva apoiara o golpe militar, começava a reagir e a
abraçar a luta dos estudantes. As imagens de estudantes humilhados,
agredidos por policiais no campo do Botafogo deixava o país pronto a
se levantar radicalmente contra a ditadura militar. A "Questão
Estudantil" estava agora nas mãos da polícia, e diante da
passividade do ministro da educação, os estudantes organizaram no
dia 26 de junho, uma passeata que contou com a assombrosa
particpação de cem mil pessoas na Cinelândia. Talvez hoje em dia,
cem mil pessoas não assustem muito, mas em 1968 a passeata teve um
efeito arrasador. Comandados por Vladimir Palmeira e Luis Travassos
(Presidente da UNE), os estudantes se lançam formalmente na luta
contra a ditadura.
A Batalha da
rua Maria Antônia
A Faculdade de
Filosofia da USP que era o maior centro estudantil de esquerda da
época e que já havia sido invadida logo após o sucesso do golpe de
1964. A Faculdade sofria constantes ameaças de alunos da Faculdade
Mackenzie, situada na mesma rua, de onde surgiu um grupo radical
ultradireitista, filiado à grupos anticomunistas, conhecido como CCC
(Comando de Caça a Comunistas). No dia 2 de outubro de 1968, os
alunos de filosofia faziam um "pedágio" arrecadando fundos para o
congresso da UNE, quando foram atacados por alunos do Mackenzie.
Foram ovos, palavrões, paus, pedras, bombas molotov, gás
lacrimogêneo, pistolas e rifles. Os estudantes transformaram a rua
Maria Antônia em um verdadeiro campo de guerra. Quando as coisas
acalmaram, no meio da fumaça, uma nova tragédia se anunciava, mais
um estudante morto, José Guimarães, um estudante secundarista que
viera ajudar a turma da filosofia. |
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